O “viralatismo” histórico no consenso acerca do fracasso brasileiro. Reflexões sobre a urgência da construção de um pensamento crítico por e para as margens.

Autores

  • Danielle Bezerra de Morais Universidade Grenoble Alpes (França) e Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.23899/relacult.v5i4.1347

Palavras-chave:

Viralatismo histórico – Educação à cidadania – Crítica Pós-colonial.

Resumo

Este trabalho propõe reflexões sobre o consenso acerca da ideia de fracasso nacional que domina o cenário da crítica sociopolítica brasileira. Comumente elaborada a partir de comparações por contraste, essa ideia do fracasso brasileiro diante das promessas da Modernidade se fundamenta numa naturalização histórica de problemas estruturais complexos. Dócil ao questionar o paradigma ocidental, a crítica dominante é feroz com o que considera ser o elemento-chave do problema: “o brasileiro”. Suposta raiz do problema para a qual esses discursos convergem, “o brasileiro” aparece como um tipo social inacabado, devendo, assim, ser educado, moldado, europeizado. Por isso é tão comum o argumento da educação à cidadania aparecer como remédio à ideia de persistência de uma cultura pré-moderna que impediria o progresso e a civilização de florescerem. Problemático, pois contribui para uma opacidade teórica que invisibiliza questões estruturais fundamentalmente modernas e legitima o status quo de desigualdades, esse consenso é sintomático de um viralatismo em grande parte devido a um passado colonial ainda presente. Por essas razões, este trabalho analisará, tendo a questão educacional como fio condutor, discursos que (re)produzem a ideia do fracasso brasileiro desde o século XIX, questionando o ponto cego da crítica dominante. O objetivo é propor, através do arsenal teórico-metodológico pós-colonial, reflexões para a construção de uma crítica sociopolítica brasileira por e para as margens. 

Biografia do Autor

Danielle Bezerra de Morais, Universidade Grenoble Alpes (França) e Universidade de São Paulo

Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba (2010), mestrado em Direito Público Aprofundado (2013) e em História, Teoria e Prática dos Direitos humanos (2014), ambos pela Universidade Pierre Mendès-France, Grenoble. É, atualmente, doutoranda em História do Direito pela Universidade Grenoble Alpes (CERDAP2), em regime de dupla titulação internacional com o Programa de Pós-Graduação interdisciplinar em Humanidades, direitos e outras legitimidades (Diversitas - FFLCH), na Universidade de São Paulo. Num diálogo entre história, direito e filosofia, pesquisa sobre História das ideias políticas, Fundamentos do direito e dos direitos humanos, Feminismos, Republicanismos e Democracia, com ênfase na questão educacional.

Referências

BARBOSA, R. Reforma do Ensino Primário e várias instituições complementares da Instrução Pública (1883), Obras completas, Ministério da Educação e Saúde, Volume X, Tomos 1, 2, 3 e 4. Rio de Janeiro: Typographia Nacional. 1947.

BOTO, C. Instrução pública e projeto civilizador. O século XVIII como intérprete da ciência, da infância e da escola, São Paulo, Editora Unesp, 2017, 428 p. (Obra completa)

CALSAVARA, T. S. Práticas da educação libertária no Brasil. A experiência da Escola Moderna em São Paulo. 2002, 271 p. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo. 2002.

CANDAU, V. M. F. Educação descolonizadora: construindo caminhos, Nuevamérica, v. 149, Buenos Aires, 2016, pp. 4-17.

CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil. O longo caminho, 13ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2010, p. 236. (Obra completa)

CARVALHO, J. M. Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi, 3ª edição, CIA das Letras, São Paulo, (1987) 2004, 196 p. (Obra completa)

COLIGNON, B. Notes sur les fondements des postcolonial studies. EchoGéo, v. 1, juin/août, 8 p. 2007.

DAMATTA, R. Carnavais, Malandros e Heróis. Para uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, 350 p. (Obra completa)

DELAZANE, T. As Reformas educacionais de Benjamim Constant (1890-1891) e Francisco Campos (1930-1932): o projeto educacional das elites republicanas. 2007, 224 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. 2007.

DUPUIS-DERI. F. Démocratie, histoire politique d'un mot: aux États-Unis et en France. Montréal (Québec): Lux. 2013. (Obra completa)

GALEANO, E. As verias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM Pocket. 2010. 396 p. (Obra completa)

HADDOUR, A. Fanon dans la théorie postcoloniale. Les Temps Modernes. (n° 635-636). p. 136-158. 2006/1.

HOLLANDA, S. B. Raízes do Brasil. 26ª edição. São Paulo: Cia das Letras. 2009. 220 p. (Obra completa)

LOBATO, M. Conferências, artigos e crônicas. Jaguaré – SP : Ed. Globo. 2010. 243 p. (Obra completa)

NABUCO, J. Extinção da escravidão. Discussão na Câmara dos Deputados e no Senado : desde a proposta do governo até a sanção da Lei n° 3353 de 13 de maio de 1888, Rio de Janeiro : Imprensa Nacional. 1889.

OLIVEIRA, L. F. O que é uma educação decolonial. Nuevamérica. Buenos Aires, v. 149, p. 35-39, 2016.

RANCIERE. J. La haine de la démocratie. Paris: La Fabrique. 2005. (Obra completa)

RANCIERE, J. Le maître ignorant: cinq leçons sur l’émancipation intellectuelle. Paris: Fayard, 1987. (Obra completa)

REGO, T. C. et al. (orgs.), Memória, História e escolarização. Petrópolis – RJ: Vozes. São Paulo: Revista de Educação. Ed. Segmentos. 2011. (Obra completa)

RODRIGUES, N. Os africanos do Brasil. 8ª edição. Obra póstuma [1933]. Brasília: Ed. UnB, 2004. 315 p. (Obra completa)

RODRIGUES, N. Crônica: Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. S/n. In: A Pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira Participações S.A. 2013. 108 p.

RAJAOSON, J. Généalogie de la Philosophie des Lumières : de Nietzsche à la pensée postcoloniale. Revista Brasileira de Estudos da Presença. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (à paraître, halshs-01702801). 19 p. Fev. 2018.

SCHUELER, A. F. M; MADALGI, A. M. B. M. Educação escolar na Primeira República: memória, história e perspectivas de pesquisa. Tempo. Revista do Departamento de História da UFF. v. 26, p. 32-55. 2009.

SOUZA, J. A dimensão simbólica do capitalismo moderno: para uma teoria crítica da modernização. Revista Estudos Políticos. v. 5, p. 41/59. 2012.

SOUZA, J. A modernização seletiva. Brasília: Ed. Da UNP. 2000. (Obra completa)

SOUZA, J. Subcidadania brasileira: para entender o país além do jeitinho brasileiro. Rio de Janeiro: LeYa. 2018. P. 287 p. (Obra completa)

SOUZA, V. S. Por uma nação eugênica: higiene, raça e identidade nacional no movimento eugênico brasileiro dos anos 1910 e 1920. Revista Brasileira de História da Ciência. Rio de Janeiro.v. 1, n. 2, p. 146-166. jul/dez 2008.

SPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Ed. UFMG. 2014. 174 p. (Obra completa)

VIANA, O. Instituições Políticas Brasileiras. Metodologia do Direito Público: os problemas brasileiros da ciência política. Volume II. 3ª edição. Rio de Janeiro: Record Cultural. 1974. 182 p. (Obra completa)

XAVIER, M.E.S.P. Poder político e educação de elite. São Paulo: Cortez. 1980. 144 p. (Obra completa)

Downloads

Publicado

05/05/2019

Como Citar

Bezerra de Morais, D. (2019). O “viralatismo” histórico no consenso acerca do fracasso brasileiro. Reflexões sobre a urgência da construção de um pensamento crítico por e para as margens. RELACult - Revista Latino-Americana De Estudos Em Cultura E Sociedade, 5(4). https://doi.org/10.23899/relacult.v5i4.1347

Edição

Seção

IV - Encontro Humanístico Multidisciplinar