Emancipar meninas? A leitura literária para adolescentes.

Autores

DOI:

https://doi.org/10.23899/relacult.v5i4.1124

Palavras-chave:

Acervo literário, Adolescentes, Maus tratos emocionais, Leitura na Escola.

Resumo

No artigo apresento a composição de um acervo literário disponibilizado a um projeto de leitura para adolescentes escolarizadas, cujo foco é discutir maus tratos emocionais ou violência psicológica. Ao criar um programa de leituras para meninas em que a liberdade para pensar e escolher fosse o meio e o fim, reuni um grupo de livros que têm em comum, temas ou protagonistas meninas, mocinhas ou mulheres que extrapolam os clássicos papéis destinados culturalmente ao gênero feminino. Na construção dessas personagens e tramas, os autores e autoras apresentam desfechos inusitados, inteligentes, bem humorados, afetivamente includentes e com lógicas não violentas. No trabalho, apresento o acervo produzido por esse trabalho de pesquisa e intervenção. Os maus tratos emocionais são um fenômeno caracterizado por um constante e reiterado desrespeito ao outro. Muitas vezes sutil, se manifesta pelo desprezo, desqualificação ou depreciação de gostos, escolhas e competências, através de falas, comentários ou mesmo argumentações que ridicularizam, desabonam e desacreditam a imagem do outro de forma direta ou indireta, publicamente, na presença e mesmo na ausência do envolvido. É uma violência que, em parte considerável das vezes, abre portas para outras manifestações e formas de violência como violência física, moral, patrimonial, sexual. Na elaboração desse "conceito", busquei conhecer pesquisas, artigos e palestras desenvolvidas por pesquisadores na área.

Biografia do Autor

Cristina Maria Rosa, Faculdade de Educação - UFPel

Pedagoda, Mestre e Doutora em Educação, atua como docente na FaE/UFPel desde 1993, prioritariamente na formação literária de professores.

Cristina Maria Rosa, FaE/UFPel

Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação, atua na Faculdade de Educação da UFPel prioritariamente na formação literária de professores.

Cristina Maria Rosa.

Doutora em Educação

Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas

Pelotas, RS, Brasil

cris.rosa.ufel@hotmail.com

Referências

Abramovich, 1989: Textos literários infantis são bobices e gostosuras...

Benjamin, 1994: “contar história sempre foi a arte de contá-la de novo” e “quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido”. O pesquisador acredita que é assim que “se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo”. Do oral, as histórias migraram para a forma escrita e, também por isso, produziram sua longevidade em nossa memória cultural.

Calvino, 1993: "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer".

Meireles, 1951: “um livro de literatura infantil é, antes de mais nada, uma obra literária. Nem se deveria consentir que as crianças frequentassem obras insignificantes, para não perderem tempo e prejudicarem seu gosto”.

Darnton, 1996: O objetivo das narrativas – e a presença de violência nelas – não era o de prevenir as crianças a respeito da desobediência aos pais e nem mesmo de protegê-las do contato precoce com a sexualidade adulta. Por não serem destinadas especificamente a crianças, essas narrativas retratavam um mundo de brutalidade nua e crua e, desse modo, aparentemente, apenas ajudavam os habitantes de aldeias camponesas a atravessar as longas noites de inverno. Sua matéria? Os perigos do mundo, a crueldade, a morte, a fome, a violência dos homens e da natureza.

Corso, 2006: Fadas no Divã.

Gonzaga, 2011: “traços definidores do que hoje se considera um texto clássico” e a primeira característica é a atemporalidade, ou seja, clássica é uma obra que ultrapassa “o seu tempo, persistindo de alguma maneira na memória coletiva e sendo atualizada por sucessivas leituras, no transcurso da história”.

Kehl, 2006: “é um dos recursos de que as crianças dispõem para desenhar o mapa imaginário que indica seu lugar na família e no mundo” e contar histórias é o “papel geracional que cabe aos pais frente aos filhos”.

Kehl: 2006: “os contos populares, pré-modernos, talvez fizessem pouco mais do que nomear os medos presentes no coração de todos, adultos e crianças, que se reuniam em volta do fogo enquanto os lobos uivavam lá fora, o frio recrudescia, a fome era um espectro capaz de ceifar a vida dos mais frágeis, mês a mês”

Kehl, 2006: As narrativas orais – forma milenar de transmissão do conhecimento – são consideradas “técnicas de transmissão oral” que “apelam ao poder imaginativo dos pequenos ouvintes” e são capazes de conectá-las ao “elemento maravilhoso” e “à multiplicidade de sentidos que caracterizam o mito em todas as culturas e em todas as épocas”, formando um “acervo comum de histórias, através do qual a humanidade reconhece a si mesma” (KEHL, 2006, p. 16).

Guimarães Rosa, 1992: Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam” (...). E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.

Todorov, 1975: Gêneros literários são precisamente essas escalas através das quais a obra se relaciona com o universo da literatura.

Todorov, 1975: o texto literário “não entra em uma relação referencial com o ‘mundo’ como o fazem frequentemente as frases de nosso discurso cotidiano” e ele “não é representativo de outra coisa senão de si mesmo”.

Todorov, 2012: a literatura tem um poder imenso: ela pode “nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver” (p. 76). Como a filosofia e as ciências humanas, a literatura é, para Todorov, “pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos” e a realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente, “a experiência humana” (p. 77).

UNESCO, 2015: Violência de gênero no ambiente escolar representada por assédio verbal ou sexual, abuso sexual, punição física e bullying, essas formas de violência podem resultar em um aumento do absenteísmo, fraco desempenho, desistência escolar, baixa autoestima, depressão, gravidez e infecções sexualmente transmitidas com impacto negativo na aprendizagem e no bem-estar de meninas e meninos.

Benjamin, 1994: os contos eram capazes de “dar um bom conselho quando ele era difícil de obter” e podem ser considerados como ajuda preciosa “em caso de emergência”. Complementa: “Essa emergência era a emergência provocada pelo mito”.

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Publicado

05/05/2019

Como Citar

Rosa, C. M., & Rosa, C. M. (2019). Emancipar meninas? A leitura literária para adolescentes. RELACult - Revista Latino-Americana De Estudos Em Cultura E Sociedade, 5(4). https://doi.org/10.23899/relacult.v5i4.1124

Edição

Seção

IV - Encontro Humanístico Multidisciplinar