Do encantado da floresta ao fantástico da escola: cosmologia Ticuna e as árvores das crianças

Autores

  • Clarissa Lopes Suzuki Universidade de São Paulo - USP
  • Eliene de Oliveira Aleixo EMEF Desembargador Amorim Lima

DOI:

https://doi.org/10.23899/relacult.v5i5.1556

Palavras-chave:

Decolonização do Currículo, Diversidade Cultural, Escola Pública, Lei 11.645/08, Povos Originários

Resumo

Este texto é um relato de experiências vivenciadas em um trabalho realizado no ano de 2014, na EMEF Desembargador Amorim Lima, escola da rede municipal da cidade de São Paulo. O projeto “Árvores e outras plantas do Amorim” foi desenvolvido com crianças de 6 e 7 anos, como parte dos estudos da Festa da Cultura, que tinha como tema “Os Povos Originários do Brasil”. Em consonância com a Lei 11.645/08, que altera a LDB 9394/96, tendo em vista uma aprendizagem significativa, o cuidado fundamental na realização do trabalho era não reproduzir estereótipos conservadores, que generalizam saberes e fazeres de culturas diversas e historicamente homogeneizadas, como aqueles encontrados nos livros didáticos estruturados pela lógica ocidental moderna. Nesse sentido, os contos Ticuna de O Livro das Árvores, organizado pelos Professores Ticuna Bilingues do Amazonas, que apresenta a cosmologia da etnia, inspirou o projeto, cujo objeto era reconhecer as árvores da escola, componentes essenciais nas brincadeiras diárias das crianças, disparando, dessa forma, a construção de um percurso de aprendizagem que não separa a razão da emoção. Para isso, em diálogo com as relações afetivas estabelecidas entre as crianças e as árvores da escola, foram experienciadas práticas de observação, nomeação e criação do povo Ticuna, o que desencadeou estudos de etnobotânica em tupi, cartografias das árvores, desenhos de observação, produções oral, visual e escrita e, por fim, a composição de um livro registrando todo o processo de aprendizagem. A experiência permitiu conhecer a complexidade da cosmologia Ticuna, desconstruindo a ideia do colonizador, quando afirma que “índio é tudo igual”, ao mesmo tempo que promove a valorização do conhecimento que se estrutura a partir das vivências cotidianas das crianças.

 

Biografia do Autor

Clarissa Lopes Suzuki, Universidade de São Paulo - USP

Clarissa Suzuki é doutoranda em Artes Visuais na USP na linha “Fundamentos do Ensino e Aprendizagem da Arte”. Possui Mestrado em Artes pela USP, Licenciatura Plena em Educação Artística pela UNESP e Extensão em “Africanidades na Educação” pela UnB. Foi professora de arte da rede de ensino estadual, municipal e privada de São Paulo. Atualmente é professora da graduação e da pós-graduação no ensino superior. Desde 2010 é pesquisadora do Grupo Multidisciplinar de Estudo e Pesquisa em Arte e Educação (CAP/ECA/USP).

 

Eliene de Oliveira Aleixo, EMEF Desembargador Amorim Lima

Professora de Ensino Fundamental, séries iniciais, na rede municipal de São Paulo. Pós-graduada em Etica, valores e cidadania, EACH USP Leste. Graduada em Pedagogia, Uninov e Educação Artistica com Habilitação em Artes Plásticas, Unesp-SP. Estudante de Pedagogia Griô.

Referências

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Publicado

31/05/2019

Como Citar

Suzuki, C. L., & Aleixo, E. de O. (2019). Do encantado da floresta ao fantástico da escola: cosmologia Ticuna e as árvores das crianças. RELACult - Revista Latino-Americana De Estudos Em Cultura E Sociedade, 5(5). https://doi.org/10.23899/relacult.v5i5.1556

Edição

Seção

II - Seminário Latino-Americano de Estudos em Cultura